A Casa das Queimadas

Criada para ser um abrigo de montanha capaz de servir o turismo crescente no início do século XX, a construção serve agora para mostrar recordar a tradição.

À primeira vista parece uma casa saída de um conto dos irmãos Grimm. É coberta de palha e rodeada do verde da floresta. Tem um ar acolhedor e podia muito bem ser o cenário para um conto de fadas.

Passando a entrada, a mesa está posta como quem espera por convidados, regressados de um passeio pela imensa paisagem natural em redor. Louças inglesas do século XIX e uma toalha de linho da Madeira, do século XX. A partir daí o resto da casa distribui-se em dois pisos, com as divisões que desembocam num corredor apertado, com um aroma intenso a madeira e a luz do dia que teima em entrar pelas pequenas janelas.

O mobiliário é dos anos 40 do século XX, quase todo em madeira de vinhático da ilha. Foram criadas réplicas das mobílias originais. As madeiras do chão saíram também de árvores da floresta madeirense, algo impossível nos dias de hoje, devido às leis que protegem a Natureza. A atmosfera é acolhedora, uma casa de família, onde não faltariam crianças ou o calor de uma lareira.

Todo o espaço é uma viagem, uma recriação do ambiente que se viveria num abrigo de montanha dos séculos XIX e XX, altura em que os primeiros turistas se aventuraram pela densa floresta da Madeira.

A transformação da Casa das Queimadas em núcleo museológico é um projeto do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza. A intenção foi manter o estilo da decoração e da própria construção, que serviu de modelo de arquitetura popular madeirense. A restauração procurou manter o espírito do local e contribuir para a preservação do património.

Na visita às diversas divisões podem ser apreciadas gravuras originais da Madeira referentes ao século XIX, obras de artistas como Andrew Picken, de 1840, J. Eckersberg e Pitt Springett, 1843. Há também diversos objetos que recriam a tradição madeirense, entre os quais utensílios de cozinha e de mesa.

Construída no primeiro quartel do século XX tem uma arquitetura inspirada nas casas típicas de Santana, cobertas de colmo, que são uma referência daMadeira desde o povoamento, no século XX. A construção fez parte de um conjunto de abrigos de montanha construídos na Madeira, a partir da segunda metade do século XIX. Pelas Queimadas passa a levada do Caldeirão Verde, cuja construção decorreu entre 1877 e 1904. Ainda hoje é um dos percursos pedonais mais procurados da Madeira, a par do Caldeirão do Inferno e do acesso ao Pico das Pedras, todos com passagem pelo Parque Florestal das Queimadas.

A decoração original e arranjo da casa demoraram até à década de 40 do século XX. Em meados do século aparece representada numa aguarela do pintor alemão radicado na Madeira, Max Römer. Em 1949 e 1950 as obras para a sua conclusão ficaram registadas na Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, a autoridade executiva da Madeira, na altura. Nos anos seguintes foram adquiridos materiais de decoração e feitas melhorias para garantir um maior conforto. A casa passou a servir a sua função de apoio a quem se aventurava pela estrada sinuosa que conduz a este pedaço do paraíso.

A escritora portuguesa Maria Lamas indicava na sua obra ‘O Arquipélago da Madeira’, de 1956: “Quem partir de Santana, encontrará o oásis florido das Queimadas, com a sua casa de colmo, revestida interiormente de preciosas madeiras da região – o vinhático e o til – e com a sua lareira reconfortante para quem chega trespassado pela aragem cortante e pela humidade de que aquelas paragens estão impregnadas.”

Esta citação consta também do folheto de informação entregue aos visitantes, onde é explicada a origem da casa, a sua importância e também o trabalho de adaptação efetuado. A visita custa dois euros a partir dos 12 anos de idade.

A abertura ao público da Casa das Queimadas faz parte de um projeto mais vasto de requalificação do parque florestal. Esta recuperação teve um objetivo de lazer mas também de proteção ambiental, já que foram recuperadas lagoas para servirem de reservatório de água, para apoio no combate a incêndios.

As obras incluíram um parque de estacionamento com 50 lugares, melhores acessos e sinalética e diversos equipamentos de apoio. Também foi instalado um centro de receção do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza, com informação sobre as áreas protegidas da Madeira.

Ao lado da casa principal, há uma casa mais pequena, também de colmo, agora transformada em cafetaria. Aqui é possível apreciar alguns produtos tradicionais da Madeira e experimentar a sensação de beber a poncha da Madeira no ambiente frio da montanha, onde muitos garantem que ela sabe melhor.

O Parque Florestal das Queimadas é considerado um dos locais mais bonitos da Madeira. Foi criado no início do século XX, numa área dominada pela floresta Laurissilva, património Mundial Natural da Humanidade.

Aqui podem ser apreciadas várias espécies desta floresta, como o til, o pau-branco, urzes centenárias, o folhado, a uveira-da-serra, cedros-da-madeira e ainda diversas espécies introduzidas que se adaptaram ao espaço.

Nas Queimadas também podem ser observadas aves indígenas, como o tentilhão, a lavandeira ou a manta, ou ainda as endémicas bis-bis ou pombo-trocaz.