Os embaixadores da poncha

 Catarina e Bernardo passam grande parte do tempo fora da Madeira, mas a ilha está na bagagem, através da poncha.

 

 
Há cerca de quatro anos Catarina Bettencourt e Bernardo Pereira receberam um desafio que lhes marcaria a vida desde então. A proposta da Associação de Promoção da Madeira era para acompanharem ações de divulgação turística da Madeira, fazendo poncha ao vivo.

O objetivo era que a promoção tradicional passasse a ser acompanhada pela gastronomia. Sendo a poncha uma bebida icónica Madeira, a sua presença em feiras de turismo ajudava a promover a ilha, ao mesmo tempo que oferecia algo diferente nos convívios e cocktails, favorecendo a socialização.

E a experiência mostrou que a tradicional bebida de sumo de limão, mel e Rum da Madeira podia ser uma poderosa ferramenta de promoção. Desde que aceitaram o desafio, Catarina e Bernardo nunca mais pararam. Atualmente contam com mais de 40 presenças por ano, numa rota que já os levou a feiras como a Bolsa de Turismo de Lisboa, a ITB em Berlim, a World Travel Market, em Londres, entre muitas outras um pouco por toda a Europa.

Em muitas dessas participações o convite parte, não da Associação de Promoção da Madeira, mas sim do Turismo de Portugal, cujos responsáveis entendem que a poncha da Madeira pode também ser uma boa forma de promover o país. Mas os clientes são cada vez mais diversos. Uma das conquistas mais recentes é a WebSummit, que se realiza anualmente em Lisboa.

O percurso destes embaixadores da poncha começou em 2008, no mercado de Natal instalado na placa central da Avenida Arriaga, no Funchal. Foi para “preencher a lacuna que havia naquele espaço, onde não existia a confeção de poncha” nas várias barracas ali instaladas, explica Catarina. E assim deram início ao projeto “A Nossa Poncha”.

A poncha sai das mãos de Bernardo Pereira, cuja família tem tradição no fabrico da bebida. A equipa é formada pelo casal e uma irmã de cada um: a Joana e a Sara.

Passados mais de dez anos, “A Nossa Poncha” nunca apostou num espaço físico permanente. Todos os locais são temporários. Alguns chegam a repetir-se a presença onde tudo começou, numa barraquinha no Mercado de Natal do Funchal. Ali, apesar da grande afluência de público, Catarina e Bernardo não abdicam de continuar a fazer a poncha no momento, como manda a tradição, mesmo que isso obrigue as pessoas a fazerem, fila para pedir: “Não se importam de esperar porque sabem que as bebidas são frescas e de qualidade”, refere.

Outra exceção em matéria de espaços foi a experiência da loja The Spirit of Poncha, uma loja pop up, ou seja, um espaço temporário, no Funchal, onde durante algum tempo “as pessoas possam lá ir la beber uma bebida, num ambiente descontraído, mas que não seja só mais um bar”.

Estes projetos ajudam a manter a atividade nos períodos em que há menos feiras e eventos promocionais, porque esse é o foco principal da equipa.

O objetivo do projeto “A Nossa Poncha” não é vender poncha. É o conceito da “montra viva”, o espetáculo de fazer ao vivo e no momento, a bebida que será servida de imediato. “O que nós vendemos é o despertar dos sentidos: a audição, quando a fruta é descascada, a visão, porque é algo giro de se ver e com cores atrativas, o olfato porque na preparação libertam-se os cheiros dos produtos, e o paladar, para finalizar, quando a poncha é provada”.

Todo o material necessário para fazer poncha tem de ser levado da Madeira, os utensílios, o rum da Madeira e até elementos decorativos, com os quais procuram, o mais possível, recriar os balcões dos bares tradicionais da Madeira. Também procuram que a fruta utilizada nas variantes da bebida seja a mais autêntica possível, comprada diretamente aos produtores.

Além do limão, que com o mel e Rum da Madeira são a receita da poncha tradicionais, conhecida por “Regional”, esta dupla de promotores costuma levar na bagagem a tangerina, o maracujá, a que juntam a laranja em sumo, pois a Madeira não tem produção suficiente para o número de ponchas servidas.

Levar todo este material é um desafio logístico. É preciso contar com transitários, distribuidores locais e garantir que os prazos são cumpridos. Por vezes alguns dos produtos seguem como bagagem pessoal, especialmente o Rum da Madeira, que não existe em alguns mercados. Mas uma vez que se trata de uma bebida alcoólica, esbarra muitas vezes nas regras dos países de destino. Catarina Bettencourt lembra que como objetivo não é a venda “mas sim uma mostra dos produtos, para degustações”.

Deste percurso por dezenas de feiras surgiram já duas ponchas criadas e patenteadas pelos próprios, que resultaram de desafios lançados pelo Turismo da Madeira: A Poncha do Mar, e a Poncha dos 600 anos. Esta última surgiu no âmbito das comemorações dos 600 anos da descoberta da Madeira e do Porto Santo. Foram ambas lançadas na edição de 2018 da Bolsa de Turismo de Lisboa. A Poncha do Mar mostra uma visão mais moderna da poncha. Foi inclusivamente lançada, ‘o momento da passagem do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, pelo stand da Madeira, e teve honras de acompanhamento televisivo em direto.

Catarina Bettencourt conta que todos os projetos que realizam surgiram naturalmente, e nunca pensando “no que é que ainda não fizemos que possamos fazer?”. Considera que idealizam os projetos quase que instintivamente, identificando o que faz falta.

“Estamos a representar a Madeira, somos o postal da cidade, o cartaz turístico, e temos que dar o nosso melhor em prol disso”, refere, acrescentando: “Nós não descobrimos a poncha, nós transformámo-la no está neste momento, através das nossas mãos e cabeça”, e sempre com objetivo de promover a Madeira como destino.