Oeste Dourado

A Ponta do Pargo e a Fajã da Ovelha são dois dos segredos mais bem guardados da Calheta.

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Tal como o Cabo da Roca, em Portugal Continental é o extremo ocidental da Europa, a Ponta do Pargo é o ponto da ilha da Madeira situado mais a oeste. Em frente só um imenso oceano que continua para lá do horizonte. Aqui o tempo para, a terra acaba. E parece estranha esta afirmação numa ilha. Mas ali é especial.

Não é de estranhar então que vários estrangeiros optem por residir na freguesia da Ponta do Pargo. Da totalidade da população, cerca de 900 pessoas, 52 são estrangeiras. É um recanto do Mundo suficientemente distante para ser tranquilo, suficiente diferente para ser belo.

A combinação entre o mar e a montanha, a hospitalidade das pessoas, a segurança, o clima, o sossego e a natureza, tudo contribui na altura de escolher um novo lar. E a beleza? Sim, essa variável também entra na equação.

Da Ponta do Pargo saltam à vista as grandes falésias e a bonita igreja de São Pedro. Se no alto a paisagem relaxa, já a zona costeira é considerada inquietante.



Num pacto entre o mar e a terra, gerou-se o nome da freguesia. O seu nome, como relata o historiador Gaspar Frutuoso (1522-1591), deve-se a um peixe pescado pelos batéis de Tristão e de Álvaro Afonso, que se “parecia pargo, de maravilhosa grandura…”.

Em 1922, no dia 5 de junho, os mesmos intervenientes voltaram a juntar-se e deram à freguesia o seu ex-libris.

Com o mar sempre em alvoroço, não foi de estranhar a decisão de aprovar, em 1883, um Plano Geral de Alumiamento e Balizagem, que já contemplava a construção de um farol na Ponta do Pargo.

39 anos depois desse primeiro plano, no alto do rochedo da Ponta Vigia, nasce uma torre que se ergue até aos 14 metros de altura.

Em termos de comparação, o farol mais alto de Portugal é o farol de Aveiro, comummente conhecido como farol da Barra, com 66 metros de altura. No entanto, se tivermos em conta a relação ao nível do mar, o da Ponta do Pargo sobe ao primeiro lugar, pois situa-se a 312 metros de altitude!

É fácil sentirmo-nos pequenos ao lado do farol. Mas não é só o tamanho que impressiona. Todos os dias, dezenas de pessoas ali param os seus carros para apreciar a paisagem à volta. É um dos locais de paragem obrigatória na Ponta do Pargo.

Por ser um marco na freguesia, em 2001 foi criado um pequeno polo museológico, no local onde se situa a farol. No museu, podem-se conhecer os faróis de hoje da Região tal como os que existiram outrora, assim como observar alguns sistemas de faróis já desativados.

Segundo a capitania do Funchal, em 2015, o museu foi visitado por 10.459 pessoas. Até ao final do mês de junho deste ano, já o farol tinha sido visitado por 9.002 pessoas, 999 das quais foram crianças.



Os números apenas revelam a importância da estrutura para a Ponta do Pargo e para a vizinha Fajã da Ovelha, que também beneficia dos visitantes, porque antes de chegarmos ao farol é por ali que, habitualmente, temos de passar.

O nome, Fajã da Ovelha, deriva, provavelmente, do assentamento de terras anteriormente desmoronadas e que funestamente colheram uma ovelha. O acontecimento deverá ter permanecido na memória das populações e ligou-se ao local, alastrando-se depois a toda a freguesia.

Quem visita a freguesia procura sossego e vistas únicas, aquelas que habitualmente caraterizamos como de “cortar a respiração”. Talvez seja essa a razão de entre os 895 residentes, cinquenta e três serem estrageiros que vieram à procura daquela tranquilidade.

Entre a paisagem de flores coloridas e borboletas que nos acompanham nas ruas, visitar a Fajã da Ovelha é também procurar arte. Essa dá-nos a natureza, em forma de quadro. Entre paisagens pintadas a verde e a azul é fácil perdemo-nos naquele recanto da Calheta.

A zona da Raposeira assume-se como a verdadeira coqueluche. É que ali se situam as vastas vinhas de verdelho, uma casta nobre do vinho Madeira, conhecida por dar ao néctar um sabor meio-seco.

Na mesma zona fica também um dos mais belos miradouros da ilha, uma verdadeira varanda voltada para o Atlântico. No Pico dos Bodes, como é o local conhecido, o tempo volta parar.

Para os adeptos do sossego ou da natureza, a Ponta do Pargo e a Fajã da Ovelha mostram-se como locais apetecíveis para viver ou para passar umas férias prolongadas.

Seja a explorar os passeios nas veredas e nas levadas ou a aventurar-se pelos percursos de BTT, é fácil apaixonar-se por estes locais.

As duas freguesias unem-se num verdadeiro oeste dourado, revivendo o tipicismo e as marcas do passado, mantendo a quietude no presente, com o olhar no futuro.

 

Artigo originalmente escrito em julho 2016. (Edição N.º 59 - agosto/setembro)