Um cheiro a mar

Na Praça do Peixe do Mercado dos Lavradores encontramos um pouco da identidade madeirense e da ligação da ilha ao Atlântico.

É sábado e o relógio marca nove horas da manhã. Na Praça do Peixe do Mercado dos Lavradores, são muitas as pessoas que entram e saem, provocando um reboliço constante. O ambiente é embalado por diversas cores e intenso cheiro a mar. O peixe é disposto nas várias bancadas e a sua frescura sobressai em cada uma delas.

Para muitos madeirenses este é o dia reservado para a compra dos produtos regionais frescos, incluindo peixe. Os turistas aproveitam a manhã para satisfazer a curiosidade do que é um mercado tradicional regional e o que se pode encontrar nele. Grande parte deixa-se levar pelo momento e eterniza a visita eternizá-lo através de fotografias. Conversam com os comerciantes. Querem saber os detalhes sobre o peixe à venda na praça.

É aqui que nos cruzamos com José Gonçalves. Tem 40 anos de experiência, mais os muitos da sua infância passados a ajudar a família no negócio. Diariamente vive e sente a tradição do mercado. A rotina inicia-se pelas sete da manhã, hora aproximada que recebe a quase meia tonelada de peixe para a sua bancada.

“O mercado abriu em 1940”, conta à Essential. “Mais tarde vieram para aí os comerciantes que trabalhavam na praça velha. Vieram todos para cá trabalhar e a partir daí o mercado foi-se desenvolvendo.”

Na Praça do Peixe procura-se essencialmente peixe fresco da costa atlântica madeirense. Vindo maioritariamente do mar aberto, encontramos “o nosso bodião, a garoupa, o pargo, o espada-preto, o atum, que aqui é sempre do mais fresco. As pessoas vêm cá à procura de qualidade”, enfatiza José Gonçalves. Há também o polvo fresco, mas aqui não se só vende peixe de águas madeirenses. À venda está também a “dourada, robalinho, que vem da Grécia e de Espanha, e o bodião e garoupa dos Açores”.

Para os madeirenses os peixes mais consumido, de acordo com a tradição são é o espada-preto e o atum. “O mercado fica mais vazio quando não há atum, fica mais preenchido quando há atum”, realça José Gonçalves. À parte destes, as cavalas e os chicharros estão no grupo dos peixes mais vendidos, quando é época.

Para os turistas, mesmo os que já têm casa na Madeira ou até os que só vêm passar uns dias, a praça do peixe do Mercado dos Lavradores é sempre um local de passagem obrigatória. O “movimento, a maneira de trabalho, o traje” são os elementos que caracterizam a Praça do Peixe. Segundo a experiência de José Gonçalves, aos seus olhos fica sempre um espaço maravilhoso e belo: “gostam e voltam, vão para a sua terra e voltam novamente”.

Para os hotéis e restaurantes, a Praça do Peixe não deixa de ser um local bem conhecido. Com um determinado grau de exigência, todos eles procuram o peixe mais fresco, especialmente para os pratos tradicionais. Muitos tesouros gastronómicos da Madeira têm o peixe como estrela principal. Um bom exemplo desta herança é o bife de atum frito com molho de vilão, o filete de peixe-espada preto acompanhado com banana frita e maracujá, ou até mesmo o gaiado, uma espécie de atum. No grupo dos moluscos as lapas estão bastante enraizadas na tradição gastronómica.

Inaugurado em Novembro de 1940, o Mercado dos Lavradores foi sempre um polo do comércio na sua vertente tradicional. Como todos os mercados de comida no Mundo, representa muita da vivência da ilha. Para os visitantes da Madeira, muitos deles a viver a centenas de quilómetros do mar, a praça do peixe é um pouco do oceano, trazido para terra.