Um relógio para Phileas Fogg

O passageiro frequente que habita os aeroportos de todo o mundo tem em Phileas Fogg um antepassado de invejável classe.

 

Phileas Fogg, protagonista de A Volta ao Mundo em 80 dias, o livro publicado em 1873 por Júlio Verne, é um personagem que em muitos aspetos representa o antepassado do moderno globetrotter, sempre de trolley na mão e detentor de um cartão de milhas dourado com acesso permanente ao indispensável lounge das melhores companhias aéreas. A figura de Phileas Fogg, tão bem interpretada pelo ator David Niven no filme de 1956, era dona de uma natural fleuma britânica, arma com que enfrentava todos os obstáculos e adversidades que se lhe iam deparando à medida que se sucedem os capítulos da história.

Mas, ao contrário de Fogg, obrigado a avançar a hora do seu relógio de bolso de cada vez que atravessava um fuso horário, perdendo assim a referência da hora de Londres, o detentor do moderno cartão de milhas dourado tem à sua disposição uma seleção de relógios de pulso capazes de indicar simultaneamente a hora no local de partida e chegada da sua viagem, ou, em alternativa, todos os fusos horários que se estendem ao redor do globo. Um gadget moderno que teria certamente feito as delícias de Passpartout, mas que deixa uma pergunta no ar: que relógio escolher ia Phileas Fogg se reencarnasse na pele de um passageiro frequente do século XXI?

As escolhas são múltiplas e a indústria relojoeira suíça tem sido profícua nos últimos anos na apresentação de novos modelos com indicação de duplo fuso horário assim como os mais complicados Horas do Mundo. Um leque de escolha vasto não impede que se reduza a seleção a um grupo de modelos mais clássicos, simplesmente porque não seria espectável que o requinte tão britânico de Phileas Fogg permitisse optar por modelos demasiado desportivos.

Os práticos GMT, acrónimo de Greenwich Mean Time, capazes de à indicação da hora local acrescentarem um segundo fuso horário, tornaram-se nos últimos anos uma categoria bastante popular no campo da alta relojoaria. Hoje é mesmo difícil encontrar uma manufatura que não proponha esta complicação no seu catálogo havendo mesmo algumas marcas que a encaram de forma extremamente criativa.

É o caso da Hermès que, com o seu modelo Dressage L’heure masquée, permite ao utilizador ocultar o ponteiro das horas por detrás do dos minutos, sem que este cesse a sua marcha. Trata-se de uma interpretação poética do tempo que se estende à indicação do segundo fuso horário na janela posicionada nas 6 horas, e que devolve ao viajante a capacidade de dominar o tempo ocultando-o sempre que desejar. Basta apenas pressionar o botão nas 10 horas para que o tempo assuma uma nova dimensão.

Também o Cellini Dual Time da Rolex não se fica pela simples indicação do segundo fuso horário no sub-mostrador nas 6 horas. A manufatura fundada por Hans Wilsdorf decidiu acrescentar a este modelo uma pequena abertura em substituição das 10 horas onde um Sol alterna a cada meio-dia com uma Lua em representação do dia e da noite.

Uma função essencial quando o fuso horário do local de destino se diferencia bastante da hora de referência no país de origem, evitando a necessidade de uma indicação de 24 horas de leitura menos intuitiva. E para o caso de se atravessar uma sucessão de fusos horários a bom ritmo, o Patek Philippe Nautilus Travel Time Referência 5990 representa a solução ideal. A presença de dois botões do lado esquerdo da caixa estanque deste relógio permite avançar ou recuar de forma rápida a indicação de segundo fuso horário a cargo do segundo ponteiro de horas.

Adicionalmente, o Nautilus Travel Time inclui uma dupla indicação de dia noite para a hora local e de destino, representadas por duas janelas à direita e à esquerda do eixo central dos ponteiros, e identificadas pela nomenclatura Local e Home. Como se não bastasse, a manufatura de Genebra associa ainda uma função de cronógrafo e indicação de data nas 12 horas, o que transforma o Travel Time num relógio extremamente completo. O nível seguinte na categoria de relógios destinados a viajantes frequentes é conhecido como Horas do Mundo.

Um género de relógios complicado que permite identificar de forma instantânea a hora certa em qualquer local do mundo. Apresentado em 2011, o Calibre de Cartier multi fusos horários com o calibre 9909 MC é uma excelente proposta por incluir algumas indicações suplementares pouco habituais.

A hora de referência deste relógio é indicada no sector inferior no centro do mostrador, através de um ponteiro dia/noite com os símbolos do Sol e da Lua. A hora local é indicada pelos ponteiros principais, enquanto o disco das cidades foi totalmente integrado no movimento sendo visível na lateral da caixa do relógio. Ao se selecionar uma determinada cidade o sistema indica a hora local da mesma, assim como a diferença horária para a hora de referência.

Adicionalmente o modelo tem a capacidade de levar em consideração a hora de Verão nas diversas cidades à volta do mundo, uma função para a qual apenas é necessário alterar a escala de referência para os cinco meses de duração deste tipo de horário.

O Lange 1 Time Zone da saxónica A. Lange & Söhne é um outro modelo que facilita de sobremaneira a tarefa do viajante em manter o tempo sob controlo quando este atravessa de um fuso horário para outro. A hora local pode ser ajustada através do simples pressionar de um botão que faz avançar um disco inscrito com as 24 principais cidades do mundo e os respetivos fusos horários em incrementos de 15° para Este. Uma ação que movimenta simultaneamente o ponteiro das horas no sub-mostrador em saltos de uma hora.

Um mecanismo de sincronização permite ainda que a indicação da hora de referência e da hora local sejam alternadas entre o mostrador principal e o sub-mostrador de forma instantânea. Quanto à Vacheron Constantin, a venerável manufatura conta com o Patrimony World Time para auxiliar os viajantes frequentes a orientarem-se ao longo dos 37 fusos horários que atualmente se encontram em vigor em redor do globo.

O mostrador deste relógio está dividido em três partes: um mostrador de safira com uma original indicação sombreada para o dia e a noite, um mostrador em metal representando um mapa-múndi segundo a projecção Lambert e um disco horário de 24 horas numa posição mais periférica. Uma composição de indicações que permite uma leitura instantânea da hora em todas as regiões do mundo, incluindo mesmo as que possuem fusos horários de meia hora.

De referir ainda que todas as indicações deste Vacheron Constantin são ajustadas apenas através da coroa, o que simplifica de forma considerável a utilização deste modelo bastante técnico. Pensando bem, e a título de conclusão, o globetrotter dos nossos dias terá talvez mais parecenças com Ryan Bingham, a personagem interpretada por George Clooney em Up in the Air, e o glamour irradiado por David Niven no papel de Phileas Fogg parece um sonho do passado sem e spaço para a realidade do presente... A não ser que a escolha do relógio certo traga novamente de volta a magia e o encanto das viagens de outro tempo. Nesse caso, é bem possível que venhamos a reconhecer Phileas Fogg num qualquer aeroporto apenas pelo pulso.