Um Assunto de Cavalheiros

Vacheron Constantin reclamou para si o título de construtora do relógio mais complicado do mundo.


No passado, explorar os limites da relojoaria mecânica sempre foi uma consequência de uma busca pelo conhecimento perpetrada por cavalheiros que, não só tinham os meios financeiros para o fazer, mas também a vontade de contribuir para o avanço da ciência. O relógio, visto como instrumento científico subjugado à medição do tempo, espelhava o mecanismo do cosmos do ponto de vista do homem, e representava assim a máquina celestial a que todos nos subjugamos. 

Estes relógios, conhecidos como super- complicações, tentavam englobar o conhecimento humano através do maior número de indicações possíveis, conjugando, em linguagem relojoeira, as complicações mais relevantes na época em que foram construídos. 

O luso-brasileiro António Augusto Carvalho Monteiro (1848-1920), cavalheiro, colecionador, bibliófilo e edificador da Quinta da Regaleira, foi o primeiro em 1897 a lançar o desafio a uma manufatura para que construísse o relógio mais complicado do mundo. O resultado, entregue em 1901 pelo próprio Rei D. Carlos, foi o Leroy 01, que, com as suas 20 complicações distribuídas pelas duas faces do relógio, representava uma das maravilhas da ciência na sua época. 

Henry Graves (1868 – 1953), um ilustre financeiro e colecionador de Nova Iorque, foi o senhor que se seguiu. O desafio foi lançado em 1925 à Patek Philippe que respondeu com um relógio com 24 complicações, igualmente distribuídas pelas duas faces do relógio. Durante 56 anos, o “Graves Supercomplication”, como passou a ser conhecido, manteve o título de relógio mais complicado do mundo e é hoje, desde que foi leiloado pela Sotheby’s a 11 de novembro de 2014 por 23.237.000 chf, o relógio mais caro do mundo. 

Ao contrário do Leroy 01 e do Graves, o patamar seguinte foi alcançado não pela iniciativa de um colecionador, mas por uma manufatura que se quis suplantar a si própria e assim restituir ao relógio mecânico o seu devido lugar após a ameaça que o quartzo representou para a relojoaria suíça na década de 1970. Com o Calibre 89, um modelo construído para comemorar os 150 anos da manufatura, a Patek Philippe apresentava um relógio com 33 complicações, do qual viria a produzir quatro exemplares em ouro amarelo, rosa, branco e platina. Reclamava-se mais uma vez o título de relógio mais complicado do mundo. 

Com esta criação, o nível de complexidade mecânica passível de ser incluído num relógio portátil parecia impossível de ultrapassar, e durante 26 anos a Patek Philippe foi considerada a única manufatura capaz de se desafiar a si mesma nesta tarefa. Mas o desafio para uma nova corrida às armas acabaria por surgir inesperadamente, em 2015, por parte da Vacheron Constantin. 

Após quase uma década de estudos, desenvolvimento e construção, a manufatura vizinha da Patek Philippe em Plan-les-Ouates, apresentou a ref. 57260, bem a tempo das comemorações dos 260 anos. Anunciado mais uma vez como o relógio portátil mais complicado do mundo, ninguém esperava que a Vacheron Constantin fosse reclamar 57 complicações, acrescentando nada menos que 24 às já incríveis 33 do Calibre 89. Aos 1728 componentes deste último, a Vacheron acrescentava 1098, totalizando 2826 componentes, e de 24 ponteiros passava-se para 31. Uma evolução ao nível da complexidade verdadeiramente abismal justificada apenas pela marcante evolução tecnológica verificada ao longo das quase três décadas que separam as duas criações. 

Mas a ref. 57260 da Vacheron Constantin representou também o regresso do cavalheiro e colecionador como ator, mecenas e instigador neste desafio de construir o relógio mais complicado do mundo. O desafio assumido pela manufatura genebrina partiu de um cliente que se mantém anónimo, e que lançou o repto de elevar a fasquia do relógio mecânico complicado para um patamar que até aí ninguém tinha sequer ousado considerar. Durante oito longos anos, a Vacheron Constantin manteve três relojoeiros exclusivamente dedicados a este projeto secreto ao qual deu o nome de código de “Tivoli”. 

Jean-Luc Perrin, Yannick Pintus e Micke Pintus dedicaram-se integralmente a este projeto, que foi ganhando complexidade à medida que ia sendo desenvolvido, e que lhes exigiu uma capacidade técnica e determinação fora do comum. Um trabalho inédito que se traduziu na inclusão de complicações nunca antes vistas, como é o caso do duplo cronógrafo (rattrapante) retrógrado ou do complexo calendário perpétuo hebraico. A lista de complicações é aliás demasiado extensa para poder ser aqui abordada, e apenas um olhar às duas faces do relógio ou às diversas “camadas” que constituem o movimento é capaz de dar uma pálida ideia do trabalho que o planeamento e a construção deste movimento implicaram. Um esforço reconhecido recentemente através da atribuição do Grande Prémio do Júri no âmbito do “Grand Prix d’Horlogerie de Genève”, os Óscares da relojoaria. 

Chegados a este nível de excelência, haverá espaço a uma continuidade para esta história? Ainda antes da apresentação por parte da Vacheron Constantin da ref. 57260, a Patek Philippe tinha já anunciado querer dirigir os seus esforços no campo da conjugação de complicações para a relojoaria de pulso, considerando que é aqui que se foca a atualidade e a necessidade de desenvolvimento técnico da relojoaria mecânica. A apresentação durante as comemorações dos 175 anos da Patek, em novembro de 2014, da extraordinária ref. 5175 “Grandmaster Chime”, com as suas 20 complicações, é disso prova. Mas agora que o título mudou de mãos, será que a Patek Philippe irá deixar os seus créditos em mãos alheias? Tomará a marca apenas a iniciativa de apresentar um sucessor do calibre 89 para as comemorações dos seus 200 anos em 2039, ou aceitará, como no passado, e com a Vacheron Constantin, que seja um cavalheiro a desafiar a sua capacidade como manufatura? 

A façanha alcançada pela Vacheron Constantin com a ref. 57260 afigura-se como virtualmente impossível de ser ultrapassada durante os próximos anos. Até lá, a casa fundada por Jean- Marc Vacheron e François Constantin, em 1755, poderá regozijar-se por contar,entre o seu palmarés, com o relógio portátil mais complicado do mundo. Um desafio que tem na sua origem o pensamento de um ilustre cavalheiro e colecionador luso- brasileiro, António Augusto Carvalho Monteiro.