A casa zero energia

Uma casa eficiente do ponto de vista energético é um dos grandes desafios da ciência da habitação.

O Funchal foi palco, em Dezembro passado, do 40.º Congresso Mundial da Habitação, organizado pela Associação Internacional para a Ciência da Habitação. Trata-se de uma associação não governamental, fundada no inicio da década de 1970, nos EUA, que agrega os vários interesses interdisciplinares que estudam a habitação, como habitat humano.

Os objectivos são, não só a divulgação, como também a criação de conhecimento e informação sobre a ciência da habitação. A sua actividade recai sobretudo sobre a criação de saber sobre este tema patrocinando pesquisas e estudos, tentando gerar o maior interesse possível sobre todas as fases, do planeamento à construção, procurando fazer com que todo o saber e métodos científicos disponíveis, sejam aplicados na industria do “habitar” e evidenciando o seu carácter interdisciplinar.

Durante o 40.º congresso Mundial foi evidente essa interdisciplinaridade, dado que as comunicações versaram desde o planeamento, às políticas de habitação, à avaliação de riscos da economia e finanças, assim como questões relacionadas com a indústria da construção e os mercados. Foram também abordados os materiais e tecnologias envolvidas na construção, o projecto e a muito actual renovação de edifícios e eficiência e sustentabilidade energética, passando até por temas relacionados com a física.

Uma das sessões que mais chamou a atenção, para além da grande representação de uma industria em que somos líderes, a cortiça, foi a apresentação da casa Zero Energy, projecto desenvolvido por um grupo privado, em conjunto com o Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Trento.

A casa foi projectada para servir de experiência, quer em termos de novos conceitos, quer no uso de novas tecnologias. É auto-suficiente em termos de energia, não está ligada à rede de gás natural, não utiliza nenhum tipo de energia a partir de fontes não renováveis e é autónoma. Produz, ela própria, a energia que consome, a partir de fontes alternativas e limpas, como painéis solares, fotovoltaicos, bombas de calor, etc.

Este projecto prova que é possível ter habitações energeticamente eficientes, com grandes áreas e formas diversas.

Estruturalmente construída com madeira, possui a necessária capacidade física estrutural e uma boa resistência aos eventos de origem sísmica. As paredes são também feitas em madeira, com isolamentos também com origem na madeira: Fibra no interior e cortiça pelo exterior.

Os acabamentos tomam em consideração os materiais existentes na região, dado que se pretende o menor dispêndio de recursos na construção, como também procura aqueles que sejam o menos transformados e processados possível, seguindo a ideia de um menor consumo, quer no funcionamento da casa, mas também na sua construção e nos elementos que compõem essa mesma construção.

Possui um sistema domótico, que consegue controlar de uma forma independente a temperatura, a luminosidade, a humidade, a abertura ou fecho de janelas. Tem um instrumento que consegue “ler” as condições ambientais que a rodeiam de uma forma permanente, passa esses dados para o centro de controlo que depois actua conforme as condições observadas e o programa que está escolhido.

De referir que esta habitação foi monitorizada durante 12 meses, pelo departamento de engenharia civil e ambiental da universidade de Trento, para a elaboração de relatórios sobre as tecnologias utilizadas e sobre o comportamento da construção.

Grande impulsionador deste projecto, é Antonio Frattari, engenheiro e investigador doutorado da Universidade de Trento, que nos últimos anos desenvolveu grande interesse e estudos sobre a temática da sustentabilidade da construção. Esta abordagem foca-se em novas tecnologias com um baixo consumo energético e com recurso a materiais renováveis e naturais, no estudo do uso de aparelhos electrónicos que consigam gerir de uma forma energeticamente responsável as questões térmicas e acústicas dos edifícios, e também no estudo sobre a conservação da madeira e de edifícios que utilizem a madeira.

Um dos desafios que se colocam actualmente no sector da arquitectura e construção é conseguir introduzir de uma forma mais geral e consistente estes avanços e estas novas tecnologias, quer na fase de projecto, quer na obra. Claro está que muitas destas inovações ainda são caras e é necessário ainda um trabalho de aperfeiçoamento e melhoramento destas tecnologias de modo a serem menos dispendiosas e a permitirem um uso mais universal.