Testemunha da História

Desde o brinde à independência, a reuniões militares, passando por grandes decisões políticas, o Vinho Madeira foi testemunha do nascimento dos Estados Unidos da América.

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O cenário é Nova Iorque em 1776. Uma taberna está cheia de soldados britânicos que ocupam quase todas as mesas. A bebida de eleição… Vinho Madeira. No mesmo dia, quase à mesma hora, entre a imensidão de floresta da Pensilvânia, no acampamento do general George Washington, a bebida é a mesma.

São cenas da série de televisão Turn, produzida pelo canal AMC, que retrata a vida de um grupo de espiões em favor de Washington, a célula Culper, que luta pela independência dos Estados Unidos da América. A história é baseada em factos reais e a referência ao Vinho Madeira na série é frequente, como forma de ajudar a caracterizar a época e a demonstrar, já nessa altura, a fama desta produção.

Na ficção história, nos artigos de jornais e revistas e até na música, o vinho produzido nesta ilha continua a ser alvo de referências constantes. A longevidade deste fortificado e a localização geográfica da Madeira, nas rotas do Atlântico, ajudam a que isso aconteça.

O Vinho Madeira é exportado para os Estados Unidos desde o início do século XVIII. O território estava longe de pensar na independência, mas na década de 1730 começam a surgir referências a este produto no outro lado do Atlântico.

A popularidade cresceu ao longo do século. Era o vinho preferido das classes nobres, sobretudo ingleses das colónias americanas. Por ser frequente é natural que tenha sido testemunha da História.

A história de que os pais fundadores, depois de assinarem a Declaração de Independência, brindaram com Vinho Madeira é o episódio mais repetido da ligação entre o Vinho Madeira e os Estados Unidos da América (EUA). Os pais fundadores eram consumidores. Mas o vinho atravessou a guerra da independência dos EUA (1775-1783), esteve à mesa das primeiras fases da vida do país. Em 1789, o primeiro Presidente norte-americano, George Washington, também o bebeu na sua tomada de posse. Cruzou todo o século XIX e nem a guerra civil americana impediu a sua importação.

Ainda hoje é apreciado. Até setembro de 2016 esta exportação ultrapassava já o valor de 1.5 milhões de euros. Os EUA continuam a ser um dos mercados com maior tradição na exportação de Madeira.

Esta relação está bem enraizada na cultura americana. Exemplo disso é o conjunto de mais de 130 garrafas, que desde Outubro estão expostas no museu Museu Liberty Hall, na cidade de Elizabeth, nordeste dos Estados Unidos. É provavelmente a coleção mais antiga de Vinho Madeira do país, segundo o diretor do museu, Bill Schroh.

Os vinhos foram descobertos no próprio edifício, construído em 1772 pelo primeiro governador de Nova Jérsia, William Livingston. Por esta mansão, passaram vários presidentes, como George Washington, Herbert Hoover ou Gerald Ford, e foi também aqui que viveu Alexander Hamilton, o primeiro secretário de Tesouro dos EUA, enquanto estudava.

As garrafas de Madeira e algumas de Porto foram encontradas em 1995, mas o trabalho de identificação só começou dois anos mais tarde. "Muitas das garrafas estavam em más condições, algumas sem rótulo, tornando muito difícil ou quase impossível datá-las. As mais antigas que podemos verificar são Lennox Madeira, importadas pelo comerciante e advogado Robert Lenox em 1796 e engarrafadas em 1798", diz o diretor do museu.

As garrafas do Museu Liberty Hall são um exemplo entre muitos outros, de como a Madeira está ligada, pelo vinho, aos Estados Unidos. A procura teve uma consequência diplomática. A Madeira foi o primeiro lugar de Portugal a ter um consulado norte-americano, aberto em 1791. A representação abriu portas para tornar mais fácil o processo de exportação.